Tendo iniciado sua vida no cinema como assistente do então já consagrado diretor Abbas Kiarostami, Jafar Panahi conseguiu apreender algumas de suas técnicas, e com o passar do tempo foi distanciando-se do mestre para também seguir um caminho bastante singular no cinema iraniano. Desta nova construção fez-se notar rapidamente por uma rara perfeição no balanço entre crônica e fábula que definia seu olhar no cinema, as vezes com graça mas nunca desvinculado da crítica a opressão que assola seu país.
Com O Balão Branco, que lhe rendeu a Camera D’Or no Festival de Cannes de 1995, Panahi mostrou a sua sensibilidade, precisão, seu humor, e ausência de sentimentalismo em situações cotidianas do Irã contemporâneo, mais especificamente da cidade de Teerã.
Do quase naturalismo de O Balão Branco, o cineasta evoluiu para um outro estágio em O Espelho (Leopardo de Ouro no Festival de Locarno de 1997) onde ele construiu melhor sua narrativa, sem desfazer-se do olhar quase documental que acompanha toda a sua obra. Mas foi em 2000, com O Círculo que o cineasta fez sua primeira grande crítica a sociedade iraniana, imprimindo através de sua arte a possiblidade também de denúncia. Em O Círculo sua crítica foi direcionada ao destino imposto às mulheres pelo regime da República Islâmica. Com este filme, extremamente ousado, Panahi merecidamente recebeu um Leão de Ouro no Festival de Veneza entrando para o hall dos grandes diretores do cinema contemporâneo.
Foi também com este filme, realizado em semi clandestinidade, Panahi chamou atenção dos censores de seu país e provavelmente selou seu destino de “Inimigo”das autoridades iranianas.
Ao realizar Ouro Carmim, filme de abertua da seção Un Certain Regard do Festival de Cannes em 2003, também filmado em semi-clandestinidade e censurado no Irã, o cineasta retratou ainda mais duramente as grandes diferenças sociais de seu país, usando pela primeira vez alguns elementos de thriller, e bem sucedido, obteve novamente o perfeito equilíbrio entre cronica e fábula.
Em 2006, usando a premissa de um jogo de futebol, Panahi realizou Fora do Jogo, onde voltou a discutir o papel da mulher na sociedade iraniana. Bem sucedido, sem cair no maniqueísmo óbvio de personagens, ele ousou entre realidade e ficção e criou um dos seus filmes mais dinâmicos.
A força de seu cinema há muito incomodava, mas em 2009 a justiça iraniana resolveu dar um basta na voz do cineasta. Sob a alegação de fazer “Propaganda contra o regime” Panahi teve a suspensão de seus direitos de artista e cidadão, tais como escrever seus roteiros, filmar, falar com a imprensa e sair de seu país. Durante esse período de prisão domiciliar, enquanto aguardava sua sentença final, Panahi em parceria com com Mojtaba Mirtahmasb, antigo colaborador, realizou o documentário Isto não é um Filme, apresentado este ano no Festival de Cannes em Sessão especial, e escolhido para ser filme de abertura deste festival. Isto não é um filme que foi feito durante um dia de visita de Mirtahmasb a Panahi, perpassa pela relação entre os dois cineastas, mas mais particularmente pela relação entre Panahi cineasta e Panahi objeto do filme, atreladas a realidade da situação (o cineasta em prisão domiciliar), estes conteúdos, outrora diríamos ingredientes, faz com que a série dos acontecimentos que brotem desta experiência, naturalmente acometam seus espectadores. O não-filme dos cineastas trata-se de uma obra surpreendente, pulsante que talvez seja mesmo a maior da obra de Panahi.
Infelizmente, mesmo sob protestos do mundo inteiro, vindos de governos, de grandes festivais de cinema, grandes cineastas, atores, além de uma imensa manifestação popular, há pouco mais de um mês a sentença do cineasta foi confirmada. Hoje os convidamos para assistirem aos filmes de Panahi, apreciar seu talento e sua coragem e torcer para que essa situação absurda seja revista. Esperamos amanhã poder assitir a novos filmes deste cineasta, desta vez realizados em liberdade, e esperamos organizar outras retrospectivas onde ele possa estar presente para discutir e seu próprio cinema.
Filmografia
1995 : O Balão Branco ; 1997 : O Silencio ; 2000 : O Círculo ; 2003 : Ouro Carmin; 2006 : Fora do Jogo ; 2011 Isto não é um filme |